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LAEA (laea@laea.com.br) é consultor de informática e resolveu tornar públicas suas inquietações sobre a condição urbana. Para amenizar, resolveu também escrever sobre as coisas de que gosta (filmes, livros, música) e algumas outras coisas úteis.

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  Bebendo o Cardápio

 

 

 

Bebendo o Cardápio

 

O 565 foi um bar que meu amigo Ronaldo teve entre o final de 1979 e o início de 1980. Ficava no Pina, na Avenida Antônio de Góes, 565. Daí o nome, meio sem inspiração, admito. A razão social da empresa era mais significativa, Iceberg, e seu slogan muito interessante: "A fria é maior do que você pensa".

 

Ele tinha apenas doze mesas, para quatro pessoas, e um garçom. A iluminação era fraca e as paredes eram pintadas de marrom, resultando numa penumbra intimista, bem convidativa a beber e confabular. Durante um período de alguns meses, desde a sua abertura, cerca de outubro de 1979, e até março de 1980, eu frequentei o bar diariamente, exceto no Natal, no 31 de dezembro e no Carnaval, assim como nos outros dias em que o bar esteve fechado, é claro.

 

Durante esse período, na maioria dos dias, eu chegava cedo, bem antes das 19h, exceto quando tinha alguma programação direto do trabalho. Nessas poucas ocasiões eu dava uma passadinha no bar depois da programação, antes de ir para casa.

 

Frequentava o Bar 565 a nata da Informática pernambucana da época, atraídos por Ronaldo, que, como eu, era Analista de Sistemas. Mas os maiores frequentadores éramos nós mesmo. O garçom dizia: "Esse bar não tem futuro. O melhor cliente é o dono e o segundo melhor cliente é o amigo do dono".

 

Mas o 565 fez sucesso por um breve período. Os carros estacionavam em frente em fila dupla e, com o bar era pequeno, havia um clima de corso carnavalesco em frente. Muitas vezes o garçom servia na calçada e mesmo na rua.

 

O bar tinha um janelão de vidro, que dava uma boa visão de dentro para fora mas, devido à penumbra interior, não permitia que se visse, de fora, o que se passava dentro. À frente do janelão havia espaço para estacionar três ou quatro carros. Como eu chegava cedo, sempre tinha lugar para meu carro. Ronaldo, que era o dono, estacionava na rua ao lado, para deixar uma vaga a mais para os clientes. Visão de empresário. Eu chegava, parava, descia do carro, entrava no bar e, quando sentava em uma mesa, um copo com minha bebida predileta à época já estava me esperando. É que o garçom já havia me visto chegando e já preparava o drinque.

 

O garçom era conhecido como Tatoo, pela extrema semelhança com o ajudante do Sr. Rorke no seriado da TV "A Ilha da Fantasia", um sucesso da época. Ele era daquele tipo de garçom que lembrava sempre as preferências dos clientes e era capaz de conjurar qualquer coisa, bebida ou comida, que fosse agradar.

 

A bebida chamava-se "Carpano Punt & Mes". Carpano é um "vermouth" nobre que mescla as virtudes originais com substâncias balsâmicas secretas e aromáticas. O Carpano Punt & Mes foi criado na Itália em 1870, quando, ao final do pregão da Bolsa de Valores, uma determinada ação havia subido "um ponto e meio". Para comemorar, um agente da Bolsa decidiu pedir seu Carpano com meia dose de bitter, dando-lhe o nome de "Punt & Mes". A graduação alcoolica é 16% vol.

 

Ronaldo comprou uma caixa de Carpano, mas somente eu bebia isso. Segundo ele, nenhum cliente jamais pediu Carpano, apesar dele constar do cardápio. Ao ser vendido o bar, a caixa ainda estava lá, quase cheia.

 

O cardápio era dominado pelas bebidas e as coisas de comer eram apenas "pratinho com azeitonas" ou "porção de castanhas". O bar não servia refeições.

 

Uma noite, não recordo o motivo pelo qual a conversa chegou nesse ponto, eu decidi beber o cardápio. Não o próprio, é claro, já que era feito de papel, mas beber todas as bebidas que constassem dele. O objetivo era fazer com que o garçom usasse duas comandas para anotar minha despesa daquela noite.

 

As comandas usadas no 565 tinham 23 linhas onde o garçom anotava a coisa pedida e, ao lado, a quantidade. O cardápio tinha 27 bebidas diferentes. Assim, se eu bebesse todas elas, seriam necessárias duas comandas. Essa é uma dessas idéias que só aparecem em bar mesmo. Como profissional da área de sistemas eu queria provocar um furo no sistema do bar, forçando o uso de duas comandas.

 

Mas resolvi dar um pequeno toque cibernético na empreitada. Tomei um guardanapo de papel e copiei o nome de todas as bebidas por ordem alfabética, de modo que a lista começava com Campari e terminava com Uísque. Não lembro qual uísque era, mas não importa. Naquela época eu não bebia uísque.

 

Comecei pelo Campari, segui pelo Carpano, bebi uma garrafa de cerveja, dessas de 750ml mesmo, pois não havia long-neck na época. Cinzano tomei três: branco, rosê e tinto. Vinho também, foram três garrafas de 350ml cada. Quando cheguei no uísque não tomei. Não porque não aguentasse mais, mas porque eu não bebia uísque naquela época. Mesmo hoje ainda evito.

 

Ao final havia bebido uma porção de 26 das 27 diferentes bebidas disponíveis no cardápio. Isso exigiria que Tatoo usasse duas comandas para fechar a minha conta. Mas ele me trapaceou. Ao registrar os três Cinzanos e as três garrafas de vinho ele escreveu simplesmente "cinzano, três" e "vinho, três", sem detalhar os sabores. Como os preços eram os mesmos, para ele não fazia qualquer diferença. Só fazia para mim, que recebi a conta em apenas uma comanda, com apenas 22 linhas preenchidas, sem atingir meu objetivo.

 

Inconformado, paguei minha conta e fui para casa. Apesar da orgia etílica e da mistura de diferentes alcoóis, dessa vez não tive qualquer problema, nem para dirigir nem ressaca no dia seguinte.

 

Na noite seguinte, novamente no bar, bebemos, eu e uma amiga, seis meias-garrafas de vinho rosê. Aí fiquei meio baleado mesmo. Pode ter sido efeito cumulativo.

 

Na noite dessa aventura estava no bar Montibello, que trabalhava na Olivetti, que assistiu a tudo. Anos depois, meu pai veio me contar que havia encontrado Montibello, a quem ele também conhecia, e que ele havia lhe contado uma história incrível, de um cara que tinha entrado em um bar e bebido o cardápio. Eu rí e lhe disse que era verdade, o cara tinha sido eu.

 

Nunca mais tentei fazer isso. Afinal, eu tinha apenas 25 anos e deve ter sido por isso que sobrevivi.