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blog do laea |
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LAEA (laea@laea.com.br) é consultor de informática e resolveu tornar públicas suas inquietações sobre a condição urbana. Para amenizar, resolveu também escrever sobre as coisas de que gosta (filmes, livros, música) e algumas outras coisas úteis. |
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Sentindo-me mais sábio
No filme “A Noviça Rebelde” tem um número musical no qual a filha mais velha do capitão von Trapp dança com o namorado, cantando uma música onde diz que tem 16 anos, prestes a fazer 17, e que precisa “de alguém mais velho e mais sábio” para lhe dizer o que fazer. No caso, o namorado, que tem “17, prestes a fazer 18”. Eu já passei dos 18 há muito tempo, e continuo achando que posso ficar mais sábio ainda. É por isso que venho tentando quebrar o velho hábito de não cumprimentar desconhecidos, pois acho que é sábio fazê-lo. Ontem, por volta das 15h, eu estava indo para um cliente e, na entrada do prédio reduzi o passo para apreciar os tanques que ficam na entrada do prédio. Eu normalmente faço isso quando vou lá, pois gosto muito de observar peixes. Os tanques do prédio em questão nem são muito cuidados e, acredito, a vida daqueles peixes deve ser muito monótona, pois, nos tais tanques, não há mais nada, além deles, água e lodo. Os peixes devem ser bisnetos de uma espécie que, por aqui, se convencionou chamar “peixe japonês”. Mas já aderiram à mestiçagem brasileira, pois são todos cinza. Ontem, esses peixes estavam todos com a boca aberta na superfície dos tanques, puxando oxigênio diretamente do ar. E a água aparentava estar realmente muito suja. Com meu passo reduzido, me dirigi à entrada do prédio. Na entrada estava um vigilante, que também olhava os peixes, e me olhou. Eu então disparei “a água está muito suja”. Ele respondeu que sim, e que era biólogo, e que o pessoal que cuidava dos tanques fazia errado, pois trocavam toda a água, em vez de trocar apenas uma parte. Eu então disse que isso era uma pena e que gostava muito de observar peixes. Ele então começou a me dar dicas de como montar um aquário em casa. E começou a desdobrar seu currículo. Que é do interior, mas não disse qual. Que passou nove anos no Exército. Que resolveu vir para Recife “com uma mão na frente e outra atrás”. Que um amigo o alojou “no seu trabalho”. Que conseguiu um emprego na Nordeste. Que fala dois idiomas. Eu perguntei quais. Eu esperava português e espanhol, mas ele disse inglês e alemão. Eu o parabenizei e disse que gostava muito de idiomas. Ele disse que o segredo para aprender um idioma é assistir filmes sem legenda, no que eu concordo. Ele também disse que era web designer. Eu fiquei pensando: hoje em dia todo mundo é web designer. Ele disse que é espírita e que estava estudando a maçonaria há quatro anos e que já havia sido convidado por um amigo para se tornar Maçon, e que tinha, “inclusive”, já preenchido o formulário de inscrição, mas que ia esperar aprender um pouco mais. E então disse que havia muitos símbolos da maçonaria espalhados numa nota de um dólar. E então abriu a carteira e tirou de lá uma nota de um dólar e começou a me mostrar inscrições em latim e o olho no topo da pirâmide, e os treze degraus da pirâmide. Ele falava com uma alegria contagiante, e com um brilho nos olhos que era hipnotizador. Nesse momento sinto uma batida nas costas e me viro. Era a cliente me cumprimentando, e entrando no prédio. Eu aproveitei a deixa e disse ao meu novo amigo: “é a chefe e eu vou ter que subir agora”. Foram uns quinze minutos de revelação de como as fronteiras de um corpo humano podem esconder personalidades fascinantes. Identifiquei-me na portaria, peguei o crachá e entrei no elevador me sentindo muito mais sábio, além de mais jovem, também.
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