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LAEA (laea@laea.com.br) é consultor de informática e resolveu tornar públicas suas inquietações sobre a condição urbana. Para amenizar, resolveu também escrever sobre as coisas de que gosta (filmes, livros, música) e algumas outras coisas úteis.

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Os Oitenta Anos do Meu Pai

Escrito em 07-Julho-2010

Hoje faz oitenta anos que morreu Arthur Conan Doyle, cuja mais famosa criatura, Sherlock Holmes, ainda hoje inspira escritores e leva multidões aos cinemas. A maioria não sabe que Conan Doyle foi o criador de histórias de ficção científica igualmente inspiradoras e ainda atraentes. Em "O Mundo Perdido" ele narra as aventuras do Professor Challenger numa região da Amazônia onde sobrevivem, nos tempos atuais (a história foi escrita em 1912), dinossauros e outros animais extintos. Outras aventuras de Challenger tratam de uma máquina que desintegra e reintegra pessoas e objetos, uma espécie de precursora do sistema de teletransporte da nave Enterprise, de "Jornada nas Estrelas". Ele também escreveu diversos livros sobre Espiritismo e a Guerra Boer, na qual participou como médico. Aliás, nas histórias do famoso detetive, o alter ego de Doyle é o Dr. Watson, fiel companheiro de Holmes.

Hoje também faz oitenta anos que nasceu meu pai. Ele muitas vezes mencionou essa coincidência, mas não lembro dele ter feito qualquer menção de que isso poderia significar que ele poderia ser uma reencarnação do escitor. Aliás, ele não acreditava que nossa alma pudesse transcender a existência de nosso corpo, e dizia frequentemente que, no final, todos viraríamos pó. Isso era, aliás, consistente com os versos de Augusto dos Anjos, que ele gostava de declamar.

Meu pai, reconheço, foi pai numa época difícil para se ser pai. Nos seus primeiros anos de paternidade aconteceram mudanças em nossa sociedade em quantidade e intensidade jamais vistas. O esforço da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria foram o motor de desenvolvimentos tecnólogicos que mudaram a forma de se viver numa velocidade vertiginosa. O resultado disso foram mudanças não menos marcantes na sociedade e nos costumes. Nos primeiros vinte anos de sua paternidade as convenções no vestir mudaram, novas formas de linguagem apareceram, novas formas musicais, novas formas de contar histórias. Até mesmo novas formas de apresentar as histórias surgiram, com destaque para a televisão.

Estou seguro que, após meus quinze anos eu nunca fui ao cinema com meu pai, e não lembro de ter ido antes disso. Mas, por ter sido uma forma de diversão da qual ele gostava muito, isso, certamente, deve ter acontecido. No entanto, foram muitos os filmes que vimos em casa, pela televisão. Filmes e, principalmente, seriados.

Meu pai apreciava, principalmente, histórias de detetives, e eram muitas as séries baseadas em histórias com investigação de crimes. Tinha "Mannix", um detetive moderno, que tinha até filmadora no carro e máquina fotográfica no espelho retrovisor externo. Tinha também "77 Sunset Strip", um policial que eu considerava pouco inteligente e mais para o estilo de pancadaria e tiroteio. Tinha "Perry Mason", um advogado que ganhava todas. E tinha "Columbo", que era o seu preferido, com aquele detetive mal vestido, mas que pegava todos os bandidos. Este formava o conjunto composto por "O Casal McMillan" (com Rock Hudson) e "McCloud" (um xerife contemporâneo, de cidade do interior, que era transferido para New York, para um estágio).

Os faroestes também eram muito apreciados, como "O Homem de Virgínia"  e "Chaparral", um dos preferidos. E tinha também "Paladino", aquele pistoleiro vestido de preto, defensor dos oprimidos, e com um cartão de visitas com um cavalo do xadrez e os dizeres "Tenho uma arma e posso viajar" ("Have Gun, Will Travel"). Já "Bat Masterson" ele achava almofadinha.

Outros seriados que ele gostava eram "Combate", passado na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, que ele parecia assistir com saudades do tempo em que passou no Exército.

Nosso passatempo enquanto assistíamos a esses episódios era adivinhar o final. E ele tinha uma taxa de acerto muito alta. Era-lhe sempre fácil acertar quem havia sido o assassino ou como tal roubo havia sido praticado. Ou mesmo como seria o desfecho da história. Com o tempo eu aprendi a entender a lógica por trás dos enredos, e adivinhar também. E competíamos para ver quem acertava o final.

Outros seriados da época ele não gostava mas, às vezes, assistia algum episódio. Eram aqueles que ele considerava "mentirosos", por terem enredos de ficção científica ou de fantasia, como "Além da Imaginação" ou "Quinta Dimensão". Como muitas vezes os episódios dessas séries eram aparentados de histórias mais familiares, como policiais ou faroestes, ele os via. Mas não gostava, principalmente por que ele não conseguia acertar o final, que eram, na maioria das vezes, realmente fora do padrão. Eu, no entanto. já amante de histórias de ficção científica, e de outras coisas mais, costumava acertar esses finais mais do que ele.

O seriado emblemático dessa união de "realidade" com "absurdo" era "James West". Um pouco parecido com o filme recente com Will Smith, mas com menos ação e mais cérebro. No seriado, a história começava como uma história comum de faroeste mas, lá pelo meio, desviava para um delírio de ciência moderna (para os 1960s) misturada com tecnologia do Século XIX, como um avião movido a vapor. Era nessa série que nosso "combate" por adivinhar o final ficava mais renhido. Ele não se conformava que alguém escrevesse uma história passada no Velho Oeste mas que com rbôs movidos a lenha e outras coisas absurdas.

Acho que ele não sabia que o criador do detetive cerebral, que havia morrido no dia do seu nascimento, havia escrito muitas histórias "mentirosas", de ficção científica, e que, diferentemente dele, acreditava na imortalidade da alma.

Ou então sabia e nunca mencionou isso, por estar ele dividido entre acreditar que nossa passagem por aqui é apenas um estágio e se dar o direito de deixar a mente divagar por realidades pouco verificáveis.

Eu, que dele devo ter herdado essa paixão por histórias de mistério, continuo consumindo quantidades industriais delas, e sempre tentando deduzir o final, o que consigo com grande sucesso, se me permitem a imodéstia. Mas adoro quando sou surpreendido com um enrêdo que me puxa o tapete, como "O Sexto Sentido" (que ele não deve ter gostado) ou o excelente "Sob Controle" (que ele certamente não viu).

Assim, seis anos depois dele ter partido, ainda hoje me sento em frente à TV e imagino-o sentado ao meu lado, ambos tentando ver quem acerta o final da história e, acredito, que isso é uma forma pela qual a alma transcende a existência do corpo.

Elementar.